Contra-Paralelo de Declinação de Urano com Netuno

Por Clovis Peres, Agente 52

“Quem poderá deter a inteligência do homem para que pare e veja como a eternidade imóvel, que não é futura nem passada, determina o futuro e o passado? Acaso poderá realizar isso minha mão? Ou esta minha língua, com a palavra, poderia realizar tal obra?”

Agostinho de Hipona

Confissões, Livro XI, Capítulo XI

Considerando que Netuno se diz do Estado ou do controle da informação, e que Plutão se diz da Técnica ou do objeto e de sua lógica, Urano, que se aproxima tanto de um como do outro, i.e., afirma, quadra e se opõe tanto ao controle da informação quanto à máquina inerente ao desejo de cada um, se diz de um conhecimento da liberdade que irrompe entre o que sempre se esvai e o que permanece, imóvel, duradouro.

Urano, os nascimentos, desde sempre a novidade, o novo início sempre ali, nem sendo só Lua que varia e nem Saturno que permanece, mas corte numa sequência, início de uma contagem, revolução dos corpos celestes, a tempestade no fim do verão, já carregada de escuro e frio. Uns dizem que o que se inscreve no nascimento é a capacidade de iniciar, outros, a de trazer o nada ao mundo, mas, seja como for, Urano, que se diz de todo o nascimento que houve, há e haverá, é sempre diferente, excêntrico ao Estado e à Técnica, ou, às vezes, inventa aparelho e máquina, noutras desinventa ideias e confunde lógicas.

Consideram-se, pois, relações de Urano com Netuno, por aspectos e paralelos, como a súbita modificação um estado de coisas, a fundação de um Estado, a comunidade de crença, de ideologia, de palavra e ação; mas, também revolta e destruição de um estado de coisas compartilhado, especialmente se esse Estado se afasta muito dos corpos que o sustentam enquanto figura de certo acordo, se acordo houve.

Conjunções, Quadraturas e Oposições se dizem de máquinas e maquinações.

Paralelo de Declinação se diz da intensidade da ação de um estado de coisas sobre os indivíduos, e o Contra Paralelo de Declinação de Urano com Netuno se diz de uma tensa reação à determinação estatal, seja essa determinação mecânica, como estabelecida na conjunção de 1821, ou eletrônica, como estabelecida em 1993.

A Conjunção de Urano com Netuno de 1821, em Capricórnio, se diz da difusão napoleônica dos ideais revolucionários e republicanos que incendeiam a Europa entre 1820 e 1850, fazendo com que se volte para si mesma e esqueça-se da colônia latino-americana, que aproveita a fraqueza da matriz e trata de se livrar, jogando-se nas mãos da Indústria Europeia do norte que vê mão de obra católica, logicamente desqualificada e barata que pode produzir comodidades variadas, sempre menos valorosas do que os produtos que a maquinaria artificializa.

O Contra Paralelo de Declinação Equatorial de Urano com Netuno de 1850, na Europa, se diz dos Comte, dos Carlos e do Kardec, quando a matemática da natureza e a razão instrumental triunfam de tal forma bombástica que lembra o triunfo da fé nos anos 1000, em que autoridades e servos, nos montes e vales de lágrimas, rezavam pelo mundo que já ia se acabar. Cede o surto revolucionário e, ao mesmo tempo em que se avista Netuno, em 1847, se diz que da ciência mecânica e do chão da fábrica nasce o Estado Moderno.

O Contra Paralelo de 1900, na Europa, fala dos embasbacados com a velocidade da informação e da produção, e, por outro lado, do grande predador selvagem, feroz, agora artilhado.  No Brasil, em meio ao crescimento da exportação do Café, ainda ressoam a matança de Canudos e a degola de Antônio Conselheiro e de todos que se renderam.

No Contra Paralelo de 1961 Gagárin, o primeiro cosmonauta, diz que a Terra é azul. Jânio Quadros toma posse em janeiro, tem sua foto na capa da revista Time em junho, e renuncia em agosto, assumindo o seu vice, João Goulart. Os Estados Unidos rompem relações com Cuba e patrocinam uma invasão, fracassada na Baía dos Porcos, e, na Europa, começa a construção do Muro de Berlim. Se em 1850 nasce o Estado Moderno, assentado na Fábrica, aqui ele declina numa guerra suja e fria.

Na Conjunção de Urano e Netuno de 1993, ao mesmo tempo em que se derruba o Muro de Berlim e a União Soviética se dissolve em novos países, nasce a rede mundial de computadores que se irradia pelo mundo e promove um arrastão planetário, infotrônico, que liquida fronteiras e laços: a produção de sujeitos conformes em escala global atinge uma perfeição nunca sequer sonhada pelo mais perfeito tirano. O estado de cada um, o Estado que flui entre nós, ainda não tem rosto, talvez nunca venha a tê-lo, ou terá tantos que sua imagem será a de todos e de ninguém.

Aqui e agora o Contra Paralelo de Urano com Netuno ocorre em 4 de maio, 18 de setembro de 2016 e 25 de fevereiro de 2017, e se procura fugir ao controle que a máquina de informação inaugura sobre o planeta inteiro, ou, a pressão mecânica é substituída pela tensão que a todos une num movimento programado na elétrica nuvem que se rasga em silêncio no fundo dos ossos.

Por Clovis Peres, Agente 52

Perfil e Contatos do Agente 52